quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Por que eu tenho que me lembrar todos os dias de quem eu sou?

Ontem (17.11.15) foi um dia especial e eu preciso explicar
Por que eu tenho que me lembrar todos os dias de quem eu sou?

Primeiro porque nasci mulher. Homens não precisam se lembrar de quem são. Eles já nascem sendo alguém e destinados a fazer algo importante em suas famílias. Mulher não! Mulher tem que conquistar todos os dias o direito de ser quem é. Não, não acredite na falsa liberdade que ronda as famílias alheias. É tudo fachada...Embora não nasçamos escravas, no sentido de escravidão que conhecemos, nossa liberdade é ceifada quando saímos do útero e nos colocam as primeiras roupas cor de rosas.

Segundo porque, como mulher, fui educada para servir, limpar a casa e chorar calada. Não que isso seja um problema, para quem acha super natural e é feliz nesta condição. O importante é ser feliz, não importa como. Mas eu nunca me conformei com essa condição. No entanto, quando fazemos isso com um ser humano, ao dar-lhe direitos restritos por conta da sua “condição” sexual, estamos não somente ceifando sua liberdade física, mas sua essência espiritual. Por isso é que eu tenho que me lembrar todos os dias de quem eu sou. Porque eu não tenho o direito de ser quem eu sou. Porque eu preciso viver de aparências, viver de regras que não me permitem ser feliz. Tenho que cobrir meu corpo, sorrir quando não me sinto bem, servir ao outro quando não sirvo nem a mim mesma e fechar as pernas...Ah, e a boca para não falar palavrão! Quando digo regras, não me refiro àquelas que são necessárias para uma convivência honesta e pacífica entre os seres (que na verdade não deveriam ter sido ‘criadas’, deveriam ser naturalmente exercidas por consciência própria de respeito e amor ao próximo, enfim...a minha liberdade termina quando começa a liberdade do meu próximo). Me refiro às regras criadas para limitar minha condição terrena, minha essência e minha felicidade.

Pense: é uma infelicidade demorar mais que metade de uma vida terrena para começar a me livrar das correntes que me aprisionaram nesta existência. Sim, serei condenada, crucificada e banida por isso! Porque, afinal de contas, sou mulher e, teoricamente, preciso seguir os preceitos criados para mim. E, me livrando dessas correntes, não mereço mais um lugar no céu. Não importa quem eu realmente seja, nem quanta caridade eu faça, nem quanto eu estude, muito menos quanto eu me doe, nunca merecerei porque, agora, mais do que antes, sou uma mulher marcada para ser infeliz. Não, espere! Isso eu já era antes...Então, tranquilo, sigamos em frente. Você não precisa se preocupar com eu sou. Eu é que tenho que me lembrar, todo o santo dia, de quem eu sou!

Sim, tenho 40 anos e ontem eu fiz minha primeira tattoo!
Nela diz: "[...] e que minha loucura seja perdodada [..]".
Bem, a continuação dela, está nos meu filhos! Sorry.